Ao passar na porta de sua casa voltando do trabalho, me surpreendi com os modelos expostos. No outro dia, outros modelos. Cada peça mais linda do que a outra. Não perdi tempo. Parei o carro e chamei o proprietário do imóvel. Ele, todo humilde e muito simpático, me atendeu. Uma hora foi o suficiente pra saber que a matéria seria sensacional. E foi! Confira na íntegra:
Morador da Vila Carrão recicla lixo e transforma em arte
Por Renata Gomes
Sucatas, materiais recicláveis e lixos recolhidos por um carroceiro morador da Vila Carrão tornam-se arte para driblar a desvalorização na venda destes produtos.
O catador de papelão José Adailton Dantas de Melo, 27 anos, transforma as sucatas recolhidas pelas ruas do bairro em miniatura de brinquedos dos parques de diversões. Acostumado com uma renda mensal de 800 reais, Adailton se deparou com a crise da reciclagem, onde o preço do papel caiu quase 50%. “Antigamente, a venda do papelão era um bom negócio. Hoje, trabalho 8 horas na rua e ganho em média 8 reais por dia”, conta. Há 6 anos na profissão de catador, a dificuldade de manter as despesas da casa e da família em dia fez com que Adailton pensasse em uma nova forma de aumentar a renda: iniciou um trabalho artesanal com os materiais recolhidos pelas ruas da cidade. A arte com os materiais que seriam jogados no lixo está crescendo a cada dia. “Comecei montando cata-vento. Atualmente faço roda gigante, parque de diversões completo e estou terminando um barco viking. No futuro pretendo fazer um tobogã e um teleférico”, orgulha-se o artista.
A família de Adailton está totalmente envolvida no novo negócio. Filomena Vernilo, 47 anos, esposa do catador, ajuda na pintura e na decoração final das miniaturas. Os enteados Natália Vernilo, 23 anos, e Erick Vernilo, 19 anos, colaboram com a pesquisa da estrutura na internet e com o desenho, respectivamente.
Um brinquedo com preço final de 120 reais foi elaborado pela família em 2 dias. Todos os materiais usados no brinquedo como madeira, cano de PVC, CD, trilho de cortina, antena de televisão, roda de patins e eixo de bicicleta são recolhidos da rua.
Os materiais ficam expostos na frente da residência da família, que também funciona como depósito das sucatas, localizado na Rua Gonçalo Nunes e esquina com a Rua Cantagalo. Adailton conta que a reação das pessoas que passam no local e veem suas obras é engraçada. “Já teve, inclusive, batida de carro. O farol parou e o motorista não percebeu, pois estava com os olhos fixados no brinquedo”, ri.
Gláucia Martins, 32 anos, passa todos os dias no local por conta da volta dos filhos à escola. “Meus filhos adoram. Pedem pra eu passar devagar com o carro pra eles olharem”, conta.
O artista pretende ter mais espaço para expor suas obras e apoiar a reciclagem no bairro. “Já pensei, inclusive, em visitar escolas e contar minha empreitada, pois as pessoas devem aprender desde cedo a trabalhar com materiais recicláveis”, planeja Adailton.
A matéria foi capa do Jornal de Vila Carrão em edição publicada dia 29 de maio de 2009. Orgulho? Muito! Principalmente quando fui entregar algumas edições
Após uma semana ele lembrava perfeitamente do dia em que fiz a entrevista. Me chamou pelo nome antes mesmo da minha apresentação.
O mais emocionante foi quando entreguei as edições. Seus olhos marejados me olharam e sua humilde fala pronunciou um obrigado que nunca escutei na minha vida! Ele disse que muitas pessoas se interessaram pelos brinquedos após a veiculação da matéria e que estava ficando até famoso...(risos)
Pois é Adailton. Se a maioria das pessoas pensassem como você, o Mundo seria muito melhor.
E, mais uma coisa: Eu é que agradeço. Muito Obrigada pela imensa oportunidade!
Renata Gomes.